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Um último aviso, filho meu. Fazer livros é um trabalho sem fim. Eclesiastes, 12,12
Para um ponto de inflexão: a pesquisa é uma ação meramente instrumental, executada em razão dos fins que a justificam ou a pesquisa é uma ação dotada de valor e sentido próprios, independente dos objetos constituídos e resultados alcançados? Vamos responder que a ideia de pesquisa costuma estar associada ao cânone acadêmico científico, como atividade-meio destinada a produzir resultados por meio da aplicação rigorosa de métodos, técnicas e instrumentos de verificação. Uma vez constituído o objeto da pesquisa e aplicada a metodologia e técnicas, o resultado acaba por consumar o processo da pesquisa ali mesmo onde está apenas começando. Os ritos de validação legitimam a demonstração dos fatos que antes eram hipóteses e assim, a pesquisa encerra seu trabalho.
Até aqui tudo certo, a chancela foi dada pelos pares, os achados aprovados pelas bancas e tudo vai para o repositório de dados da produção científica. No entanto vale ressaltar que neste ambiente de produção do conhecimento, a premissa da validação leva em conta a questão epistemológica, esta que demarca uma distinção metódica: se o sujeito cognoscente utilizou hipóteses testáveis ou apenas pensou axiomaticamente, com alto grau de especulação e discursividade. Os dois métodos de pesquisa são válidos, um de ordem quantitativa, outro de ordem qualitativa. O cânone acadêmico também está associado a objetivos institucionais do sistema universitário, onde ensino, pesquisa e extensão definem a razão de ser da instituição. Se fossemos atualizar estas missões universitárias para o século 21, seria relevante acrescentar, por exemplo, uma quarta dimensão: a da inovação.
De outra parte, a pesquisa é apreendida na iniciativa privada e pelo mercado como eixo componente de cadeias de produção industrial, o chamado o P&D. A pesquisa é uma fase no processo de geração de produtos e serviços, em face das pressões e demandas competitivas, implicando ou não alguma externalidade social. No entanto, o meu ponto de inflexão é pensar a pesquisa fora ou além destes cânones. Ao criticar a ideia do senso comum da atividade do pesquisador, importa firmar minha perspectiva dentro das Humanidades e Filosofia, nas Artes e Literatura, Educação e Comunicação. Não parto das características mais óbvias do mainstream das ciências, engenharias e tecnologias. Se fossemos tratar da pesquisa instrumental, a discussão que pretendo não teria os efeitos desejados. A meu ver, a ideia de pesquisa como prática de conhecimento dentro destes campos não tem o mesmo significado, posição e lugar ontológico quando se coloca dentro das engenharias, tecnologias, indústria e economia. Outro ponto de partida para esta inflexão é o fato de que, no estado atual das artes educacionais, é importante fazer certas distinções: ser um aluno não significa ser um estudante; um professor não equivale necessariamente a um educador; um pesquisador também não é necessariamente em técnico de laboratório.
Dirijo-me especialmente aos que lidam com a criação do pensamento e a constituição do conhecimento pertencentes às Humanidades em geral e na Filosofia em particular. Curioso é que nada me parece estar fora deste campo quando de se trata da invenção do homem por ele mesmo. Ora, se tudo na vida, a bem dizer, começa com uma boa pesquisa; se todo amor intelectual começa com um beijo no mistério das coisas, a pesquisa em si mesma só poderá nascer no coração do estudante e crescer na vocação do pesquisador.
Pesquisa é o exercício praticado por aquele que estuda. Sem o estudo, a pesquisa não ultrapassa seu objeto inicial. Falo da minha própria experiência de vida em que a pesquisa se converteu numa atividade de busca vital, um ato permanente de exercício do pensamento, de geração do novo (nem sempre achado) e da sua desconstrução, sempre na companhia dos clássicos e da história.
Toda pesquisa é num certo sentido, escolástica e iconoclasta. Se não prescinde do lugar de escola, do grego Scholé - função quase monástica de retirada do mundo em direção ao otium (ócio), contra o mundo do neg-otium e do officium - é também destruidora de imagens, do que é vigente, estabelecido pelos 3 cânones e doutrinas detentoras de verdade ou razão.
Cresci datilografando. Aos 13 anos já era diplomado em teclado. Aos 18 anos ganhei do pai, a meu pedido, toda a coleção Os Pensadores. A tendência meio arqueológica, meio genealógica, o gosto por mapas-múndi e roteiros de navegação, a predileção pela origem das palavras, os étimos e etiologias das coisas. Tudo isso me levou a única medalha que ganhei na vida (1985): a do mérito estudantil, na graduação em ciências sociais quando alcancei sem saber o maior índice do ano em toda a universidade naquele ano.
De lá para cá a vida de estudante nunca me abandonou, sempre me realizou e até me protegeu, num plano onde não crescem os absolutismos e determinismos, as verdades ditosas ou roselitismos revestidos de boa consciência e vaidade intelectual. No coração de estudante pulsa uma vida de exercícios em companhia de certa humildade da razão e força da vontade, sem a recusa do outro, o leitor, este a quem tudo se destina. Aquele que mantiver pulsando seu coração de estudante crescerá como estudante das coisas humanas, das nervuras do real e construirá seu Studium, seu jardim de cultivares, ideias e ideais.
É Giorgio Agamben quem me inspira aqui a permanecer no meu Studium, quando escreveu um destes comentários de ruptura, chamado “Studenti"1. Neste breve e indignado texto, o filosofo italiano ataca de frente a situação moderna do estudante que deixou de estudar para tornar-se um investigador de urgências. Segundo o autor, em nada se pode comparar o estatuto epistemológico do estudo nas ciências humanas ao estatuto da investigação nas ciências naturais, pois o paradigma cognitivo do estudo é superior á atividade de investigação, ou nos nossos termos, da pesquisa instrumental. O investigador nas humanidades é um estudioso cuja “interpretação de uma passagem de Plotino não está ligada a nenhuma urgência particular”.
Trata-se de uma “impostura terminológica”, uma transferência indevida de perspectivas, estruturas e metodologias muito diversas.
“Se esta substancial heterogeneidade dos dois âmbitos aconselharia, desde logo, a reservar o termo investigação para as ciências naturais, outros argumentos sugerem a restituição das ciências humanas ao estudo que as caracterizou ao longo de séculos. Ao contrário do termo ‘investigação’ [ricerca], que remete para um girar em círculo sem que se tenha encontrado ainda o próprio objeto (circare), o estudo, que significa etimologicamente o grau extremo de um desejo (studium), encontrou já e sempre o seu objeto. Nas ciências humanas, a investigação é apenas uma fase temporária do estudo, que cessa uma vez identificado o seu objeto. O estudo é, pelo contrário, uma condição permanente. Aliás, pode-se definir o estudo como o ponto em que um desejo de conhecimento atinge a sua máxima intensidade e se torna uma forma de vida: a vida do estudante – ou melhor, do estudioso”.
“Deveria ser claro, de facto, que numa sociedade dominada pela utilidade são justamente as coisas inúteis que se tornam um bem a salvaguardar. A essa categoria pertence o estudo. Aliás, a condição estudantil é para muitos a única ocasião para fazer a experiência, hoje cada vez mais rara, de uma vida que se subtrai a fins utilitários.” (Giorgio Agamben, op. cit.).
É essa forma de vida que vai alimentar no coração do estudante a vocação para pesquisa, alguém que fará dela uma busca infinita, um per-curso sem objeto útil, a dizer um percurso para as inutilidades” intangíveis de que são feitas as humanidades, a filosofia, a literatura e a poesia. Na história das ideias, na criação estética, na ética e na compreensão da humanidade, o valor da pesquisa está no desaparecimento do seu objeto e na presença infinita do desejo pelo conhecimento: a pesquisa é infinita para aquele que estuda. O pesquisador - estudioso é um renovador do pensamento. Seu estudo é uma busca vital sem objeto, um fazer de escavação, uma vocação para indagar. A base da ciência ocidental nasce com a ideia de que para algo ser verdadeiro há que ser verificável. O que não é verificável, é especulativo ou da ordem da crença. Iluminismo e empirismo ancoram a ciência moderna. Mas como “verificar” uma passagem de Santo Agostinho sobre a matéria e a existência, a não ser se a tomarmos apenas como dádiva autoral, um bem de linguagem, um gênero de escrita metafísica? Nada há o que provar no texto filosófico, mas tudo há o que procurar neste gênero de pensamento. Um pesquisador, por vocação, é um discípulo das lições socráticas. Se não perguntar, duvidar, se não tratar dialeticamente suas certezas provisórias, seus achados precários ou surpreendentes, poderá vir a ser um grande cientista, mas não um sábio, no sentido Antigo.
* Publicado originalmente em inovadores.org.br
