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Em 1908, o filósofo alemão Georg Simmel introduz na então sociologia nascente o termo Vergesellschaftung, que compreende uma visão perspectiva do social como um “permanente vir-a-ser, ou seja, como um processo sempre in fieri, algo que está acontecendo sem que se possa dizer que aconteceu. Esta compreensão é um desdobramento da concepção filosófica de Simmel segundo a qual aquilo que é percebido pelo intelecto como realidade, estruturas fixas e substâncias sólidas, em verdade, é essencialmente movimento, processo, continuidade e interdependência. Não há “sociedade” como entidade a priori, mas processos de interação e relações recíprocas, sejam elas cristalizadas em estruturas permanentes ou em relações interpessoais transitórias.
Em busca do objeto próprio da sociologia, Simmel faz uma distinção essencial entre forma e conteúdo, a fim de estabelecer o papel da sociologia em relação a outras ciências. O conteúdo seriam os impulsos, propósitos, os interesses individuais; já a forma das interações refere-se às formas da cooperação, competição, subordinação ou a criação de hierarquias. O termo Vergesellschaftung também é usado no sentido sociológico amplo de um indivíduo se integrar a um grupo ou ser moldado pelas normas sociais, num processo contínuo de associação ou socialização. O objeto da sociologia consistiria em abstrair do caos interativo da experiência humana as formas de sociação, que seriam os modos básicos de interrelação de elementos sociais: antagonismo e conflito, dependência e autonomia, dominação e subordinação, representação, relação intra e extra grupo, o princípio de estruturação do espaço e tempo, o princípio da quantidade. Os conteúdos – que só analiticamente podem ser separados das formas – independem destas e devem ser deixados às outras disciplinas: atividade econômica, religião, lei, sexo, educação etc.
Para o filósofo alemão, as formas de sociação seriam princípios abstratos orientadores da investigação do socius e, como tais, análogos aos “tipos ideais” Max Weber, aos “princípios estruturais” de Claude Lévi-Strauss ou às “estruturas estruturantes” de Pierre Bourdieu. O que que nos chama atenção é que Simmel propõe um método para a análise microssociológica, algo que era novo em seu tempo. Suas análises discretas sobre a conversação, o segredo, a coqueteria, o estrangeiro, o aventureiro, a vida mental na metrópole, o tato e a sociabilidade [algo que ele designava como a forma lúdica de toda associação e a forma arquetípica de toda socialidade humana], revelam como articulava a psicologia, a sociologia e a antropologia nos modos como viríamos a entendê-las atualmente.
A proposta de empreender uma etnografia das formas de sociabilidade pode ser vista aqui como um projeto maior, análogo a outros que orientam a elaboração de etnografias no âmbito da pesquisa antropológica contemporânea. Entre diversos exemplos de etnografias que vão nessa direção destacamos o trabalho de Simone Maldonado: Mestres e Mares: espaço e indivisão na pesca marítima, publicado pela Annablume,1994. A autora explora a noção simmeliana do segredo e mostra como tal noção, assim como a da mentira, constituem entre os pescadores, não atos conscientes de distorção de informações, mas formas circulares de discurso que revelam as faces do jogo social entre ocultação e revelação. Nesse jogo, ocultação e revelação, hierarquia e igualdade, competição e cooperação se conectam na constituição da pesca como forma social no sentido de Simmel.
Podemos dizer que Simmel foi um precursor da antropologia da vida social contemporânea porque, ao invés de abstrair os microprocessos e relações sociais, utilizando categorias de análise totalizadoras, como a estrutura, o sistema, a sociedade, a norma, propõe a análise das relações sociais como transações espontâneas entre indivíduos, atos de interação, atos de fala, de conversação, atos de socialidade elementar. Com isso, valoriza amplamente a condição da experiência, da historicidade e do mundano na existência humana, para ele sempre infinitamente criativa, fragmentada, múltipla e conflitual.
Comparado a um “esquilo filosófico” pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset - que foi seu aluno - escreveu Ortega: Simmel “aceitava o tema que escolhia como uma plataforma para executar sobre ela seus maravilhosos exercícios de análise” (cf. a introdução de Evaristo Morais Filho sobre Simmel para o público brasileiro, na coleção Grandes Cientistas Sociais, Ática, 1983). Visto como pensador psicologista, formalista e assistemático, Simmel não teve o mesmo renome e a influência de Émile Durkheim ou Max Weber na institucionalização da sociologia. Ele mesmo previu este destino, ao escrever em seu diário que não deixaria herdeiros porque sua herança se dispersaria e passaria de mão em mão. No entanto, notamos um interesse permanente por suas obras nas mais diversas áreas. Especialmente na antropologia, suas ideias inspiraram estudos e pesquisas sobre a mediação e trânsito cultural nas metrópoles, novas formas de sociabilidade no ciberespaço, trajetória e memória urbanas, antropologia das sociedades pesqueiras, sociabilidade ameríndia na Amazônia.
Esta relação de proximidade entre o pensamento de Simmel e a Antropologia contemporânea conecta-se com a experiência etnográfica que observa no trabalho de campo a interação direta na imersão metódica no mundo do outro como condição para a produção de conhecimento.
