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Certa vez, numa entrevista em 2013, o escritor brasileiro João Anzanello Carrascoza disse, a propósito do trabalho literário que “Mais do que criador, o escritor é um observador da realidade, do tempo presente e da aventura humana”. Não há citação melhor para observar o conjunto da obra de outro escritor brasileiro, Gilberto Kujawski [1929 - 2025].

Se fosse acrescentar algo à citação de Carrascoza diria que Kujawski navegou como nenhum outro autor, exatamente como um aventureiro e observador participante das ideias do genial filósofo espanhol José Ortega y Gasset.

A remada dirigiu-lhe nos caminhos da poesia e da literatura, da filosofia da vida e da vida da filosofia, dos problemas brasileiros e as ideias fora de lugar, dos ideais inacabados de nação, das questões culturais aos sentidos e sabores da existência, da política às noções de liberdade, democracia e participação.

A influência de Ortega sobre Kujawski percorre dramaticamente todo o conjunto da sua obra, de modo que a certa altura - e para quem mergulha em seus textos ao longo de cinco décadas e além, portanto, no espaço-tempo de um tempo intergeracional – ficamos sem mais distinguir o autor, seus escritos e sua biografia, inspirada e encarnada radicalmente no pensamento orteguiano.

Tal pensamento guiou nosso autor não apenas nas temáticas que elegeu, mas e principalmente no estilo, a dizer, a ensaística, o dizer sobre as coisas e as  coisas por dizer, o que fazer nas circunstâncias de si e do outro, com elegância, autenticidade e provocação.

O ensaio aliás, como esteio da escrita insubornável, livre das sumas e tratados, permite levar Kujawski - tendo sido ele, a exemplo de Ortega, um periodista longevo – ao encontro com a fina flor da tradição brasileira deliteratos-filósofos que marcaram profundamente o século modernista, uma corrente-torrente que inicia em 1922, com os Andrade, Freyre, passa por Cândido e Clarice, segue com Mota Pessanha, Flusser, Bento Prado Jr. e tantos outros artistas deste estilo.

O legado deste autor, um leitor crítico e atento à circunstância do seu tempo, é o de mostrar às novas gerações que a despeito de todos os modismos ou dualismos, o trabalho do pensamento não corre preso a um corrimão, mas imagina-se fértil quando se atém às coisas mesmas, tais como se apresentam a nós, enquanto mistério da linguagem e oportunidade para a geração de novas ideias e projetos vitais.

Publicado originalmente em inovadores.org.br

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