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O filósofo alemão Peter Sloterdijk é detentor de uma obra singular na filosofia contemporânea. Temos aqui um pensador inovador que pode ser considerado um filósofo pós-heideggeriano, no sentido em que pensa a filosofia do século e para o século 21. Os trabalhos de Sloterdijk apontam para uma antropologia filosófica de alta magnitude e atualíssima, pois vai além das tradições orientadas pelo aristotelismo e pelo cartesianismo e, nos últimos séculos, marcadas pelo kantismo e pelo tomismo. O filósofo atua na longa duração da narrativa humana, nos processos ontogênicos e filogênicos da hominização e de certa forma prepara uma antropologia material na base de uma antropotecnologia geral.

Seu pensamento percorre a Europa, a democracia liberal, religião, Deus, amor, guerra, razão, cinismo, ira, a família, o espaço, o útero. Bruno Latour diz que Sloterdijk é um “escriba de Deus”. Pensador polímata e das longas durações, é capaz de opinar desde a psicanálise até as finanças e o mecenato, do islamismo ao sovietismo, da camada de ozônio à sexualidade do Neandertal. Seu opus magnum é a trilogia “Esferas” que excursiona sobre os rituais da placenta e as construções espaciais da imunidade protetiva das comunidades humanas.

Considerado um intelectual público e midiático, irreverente e sujeito às suspeições da academia, fez sua passagem para a Índia quando em 1979 estudou com o guru Osho (Bagwan Shree Rajneesh). O filósofo inglês John Gray considera-o incompreensível. É visto por uns como libertário e outros como eugenista. Situado à centro-esquerda do espectro político, deplora a ascensão da extrema direita, mas não deixa, no entanto, de analisar seu ‘espetáculo’ enquanto manifestação de “bancos de ira” organizados como capital político a mobilizar as massas descontentes com as promessas do capitalismo global.

Considerando a si mesmo um macro historiador é um autor que diz como se pode fazer filosofia de um modo até então impensado, em um mundo intelectual que já experimentou ironia e desconstrução. Esta curta apresentação pretende apenas iniciar ou talvez provocar o leitor a mergulhar na obra espantosa do mais importante filósofo alemão hoje. Dela exporto um fragmento de um de seus livros cujo título sugere à primeira vista, um livro de autoajuda, mas, ledo engano leitor!

Habituamo-nos com a máxima socrática "Conhece-te a ti mesmo". Somos educados nessa abordagem clássica do self, a buscar dentro de nós, via autoconhecimento, a essência que já nos habita e que precisamos conhecer. Depois, o filósofo Nietzsche retoma de Píndaro, o poeta grego, a máxima "Torna-te o que és”, que, ao contrário da máxima socrática, sugere movimento, uma contínua descoberta de si mesmo, a invenção de si. Torna-te aquilo que na potência de ser.

E agora, o filósofo Peter Sloterdijk vale-se de um verso do poeta Rainer Maria Rilke e propõe uma terceira máxima pedagógica: "Tens de mudar de vida". Significa não tanto a máxima socrática ou a máxima nietzschiana, mas uma outra máxima, a da autossuperação, motivada por “tensões verticais”, uma busca incessante, de tipo ascética, um esforço para o alto e para as alturas, via exercícios, disciplina e repetição: a vida exercizante faz do homem o novo homem dele mesmo no caminho de atletas e ascetas.

O poeta vai inspirar o filósofo. O poema "Torso Arcaico de Apolo", de Rainer Maria Rilke, publicado em 1908 (ver poema no final deste texto), detalha a beleza e o poder remanescentes de uma escultura danificada, que perdeu a cabeça e as pernas. Significa que a beleza fragmentada de uma escultura de Apolo, mesmo sem a cabeça, é capaz de transmitir uma sensação avassaladora de presença e poder. A estátua, por sua forma e pela impressão que causa de estar observando o espectador, impõe a necessidade de uma mudança de vida, de viver de forma mais autêntica e de se perceber como um ser que também está em constante transformação.

Depois de ler "Tens de mudar de vida - sobre antropotécnica" (2018), um livro espantoso [no sentido aristotélico], publicado na Alemanha em 2009 e traduzido em Portugal em 2018, passei a olhar as academias de musculação e os templos de pastoreio com alguma estranheza etnográfica. Uma academia de musculação, ginástica, fitness ou yoga, pode ser vista como um templo em que potenciais heróis acrobatas exercitam seus corpos em nome de um ideal ascético, tal como os antigos monges. Só que esse esforço de autossuperação não tem nada de religioso e sim indica um sintoma, um movimento prático das tensões verticais que regem o modo de vida do homem contemporâneo: trata-se de uma disciplina exercida e orientada para o alto, para a melhor forma, mirando modelos ou paradigmas ou personalidades inalcançáveis: aí constam os mestres, treinadores, ensinadores, e os instrutores e coachs, “gurus” de business. Seriam esses templos mais um clube de exercícios, físicos ou espirituais para treinar ilusões? 

Se você quer mudar de vida, se quer ser como um Apolo, vai precisar viver uma vida de exercícios, voltar-se para si e submeter-me a uma vida de conversões, a partir de um imperativo metanoico. Apenas deste modo conseguirá estabilizar a busca vertical do improvável, mirando mestres modelares e a repetição de técnicas e ritos de perfeição.

Mas antes de entrar nestes “procedimentos de exagero” e no amanhecer dos treinadores, é preciso situar o que neste livro Sloterdijk anuncia: a virada antropotécnica. Partindo da percepção que o próprio homem geraria o homem, ele se volta imediatamente contra posições semelhantes que apontam o trabalho, a comunicação ou a interação como veículos desta autoprodução humana. Com isso, deixa claro que não é Marx ou Habermas que o inspiram, mas sua ideia original é que o homem se produz através de exercícios: “Como exercício defino qualquer operação que conserva ou melhora a qualificação do ator para realizar a mesma operação da próxima vez, seja ela declarada como exercício ou não” (2018:16).

A antropotécnica é um interessante conceito operador para entendermos o século 21 e essa vida exercizante" de que fala o filósofo alemão. Engloba todas as autotransformações, as conversões pessoais, tentativas existenciais de superação e as asceses performáticas dos atletas, acrobatas, artistas e seus seguidores, candidatos às conversões para o alto, para o melhor do que se era, via repetição até a perfeição. Sloterdijk radicaliza a sua visão a respeito do exercício, seja físico ou espiritual, definindo-o como antropotécnica.

Os homens, diz ele, se fazem a si mesmos por meio de exercícios e se refazem mirando ovos exercícios, repetindo-os para alcançar aprimoramento e um estado improvável de perfeição. Sloterdijk visualiza o homem como um ‘designerde interiores’, uma criatura que constrói a sua imunidade desde dentro Compreender o homem é compreender sua domesticidade, sua morada, seu ambiente imunológico. Com a adoção deste conceito, o filósofo livra-se dos dualismos de tipo estruturalistas como natureza x cultura ou biologia x história e tenta aliar ontogênese e filogênese, criando uma espécie de arqueologia da intimidade ao fazer uma narrativa antropológica fantástica (2018). A antropotécnica de Sloterdijk reflete a meu ver o eco orteguiano do homem projetual, aquele que se faz e refaz, o que precisa saber a que se ater nas suas circunstâncias.

Em entrevista concedida ao filósofo francês Philippe Nassif, no livro que reúne diversos interlocutores (2016), o autor resume o que o levou a escrever “Tens de Mudar de Vida”:

“Depois de avaliar os resultados de trinta anos de exercícios espirituais e físicos, escolhi a direção de um novo tipo de antropologia filosófica. Em meu novo livro, mostro que falta um conceito  os conceitos básicos de nossa cultura, na teoria clássica da ação de nossos sociólogos. Sem esse conceito, sempre será impossível descrever como vivemos. Os autores clássicos da sociologia estavam preocupados com duas coisas: comunicação, por um lado, e trabalho, por outro. Podemos conversar uns com os outros ou virar as costas uns para os outros para colocar nossas energias no desenvolvimento de um produto, mas o que os modernistas esqueceram é a terceira dimensão de nossas atividades, que podemos resumir com o conceito de "exercício".

“As pessoas que fazem exercícios desenvolvem sua própria forma. Mas temos que entender que os humanos são seres que não estão em posição de não se exercitar: eles estão condenados à repetição. As únicas alternativas que eles têm é repetir as coisas conscientemente ou ser empurrado para as coisas pela rotina. O esporte é uma metáfora para algo que vai muito além dele. Através da mediação do esporte, podemos observar o surgimento de uma forma de espiritualidade baseada na afirmação – mais precisamente, a afirmação da forma. Mas, como sabemos desde Nietzsche, Ser significa ser-em-forma. Cultura pessoal significa ter a vontade de libertar o acrobata dentro de nós.”

Sobre este ponto, Sloterdijk arremata: “devemos alterar o ditado de André Malraux: o século XXI será acrobático ou não será nada!”, se referindo a um famoso ditado de André Malraux: 'Le 21ème siècle sera spirituel ou ne sera pas'. ('O século XXI será espiritual ou não será nada.').

De modo geral e sobre este livro notamos que Sloterdijk pretende entender as leis que governam nossas biografias cognitivas e para tanto, desenvolve uma teoria que compreende o disciplinamento individual (ascese, virtuosidade e desempenho) como causa de diferenciação vertical, despedindo-se das teorias sociológicas tradicionais de estratificação como causa da dominação, da repressão e do privilégio.

Na mesma entrevista, quando perguntado se não estaria usando um conceito muito amplo de exercícios espirituais, o filósofo alemão responde:

“Não esqueçamos que uma carreira espiritual moderna normalmente envolve várias conversões. A conversão clássica seguiu um padrão de pessoas que passaram da adoração de deuses romanos ou germânicos para o Deus do cristianismo. Aliás, Buda, Maomé e Cristo são os nomes dos grandes treinadores, e seus sucessores são apenas treinadores de segunda classe, mais conhecidos pelo título de apóstolo ou sacerdote. O que as pessoas chamavam de conversão acabou sendo uma mudança de treinador. Hoje em dia, muitas vezes as pessoas não conseguem ficar satisfeitas com uma única conversão” (2016).

Os exercícios modernos, quando afastados da percepção puramente religiosa, representam asceses desespiritualizadas; são basicamente treinamento. Estão incluídos aí os programas de condicionamento físico das academias urbanas, as vivencias tântricas, as escaladas no Everest, assim como os refúgios e desertos dos eremitas e profetas, as caminhadas de conversão europeias, as ladainhas repetidas à exaustão e os longos e vigorosos cantos dos índios Suyá nos sertões do Brasil. Todos os exercícios, físicos ou espirituais são práticas miméticas destinadas a transpor de uma geração a outra os conteúdos cognitivos e éticos sustentados pelas elites de uma civilização cujos integrantes foram elevados a paradigmas, modelos, exemplos a seguir.

Sloterdijk identifica dez modelos de treinadores exemplares, os responsáveis por mostrar aos treinandos como realizar o impossível e estabilizar as tensões verticais que provocam o desassossego dos mortais. No capítulo oitavo do livro – Jogos de Mestre – Dos treinadores como garantidores da Arte do Exagero - temos um panorama sumario destes guias para o improvável. Há dois grupos: os treinadores espirituais, mestres da alma e da formação consciente; e os treinadores pragmáticos, artísticos ou técnicos, os que treinam o corpo, o movimento e os conteúdos programáticos.

No primeiro grupo temos (a) o guru hindu, sendo Osho e Krishnamurti os exemplos mais notáveis; (b) o mestre da tradição zen-budista, aqui o próprio Buda e o mestre japonês Kodo Sawaki, cuja biografia é admirada em todo o mundo; (c) o apóstolo e os abades cristãos, imitadores de Cristo, sendo São Paulo e São Francisco os exemplos paradigmáticos; insere-se aqui a figura de Maomé e todo o seu séquito espalhado pelo mundo; (d) o filósofo, na condição de testemunha da busca da verdade, com três categorias: Sócrates, o erótico, Marco Aurélio, o estatuário e Plotino, o gnóstico. Encerrando este grupo, temos (e) o sofista como mestre da arte de viver, onde aparecem Górgias, Mozart e o contemporâneo Derrida, artífice da arte da desconstrução.

No segundo grupo, os nomes dos treinadores são exemplares em si mesmos, ficando por conta do leitor imaginar as personalidades que podem caracterizá-los, algo que pode estar na esquina da rua mais próxima. Temos (a) o treinador de atletas, sendo lembrado os gladiadores romanos; acrescentem os instrutores de artes marciais das grandes cidades e os técnicos de futebol; (b) os mestres de artes e ofícios, artesãos medievais que preparavam os aprendizes nos burgos europeus; (c) professores acadêmicos, os catedráticos, espécie de sujeito coletivo a que se aplicou o título de res publica litteraria (republica dos sábios, 2018:367), responsáveis pelo endurecimento dos treinamentos e cuja missão é a reprodução alargada dos capitais cognitivos da vida acadêmica; (d) os professores comuns do ensino geral, personificações do sistema escolar (e) os escritores da Luzes e jornalistas, dedicados a causa do esclarecimento.

O diagnóstico de Sloterdijk quanto ao tema do nosso tempo é que as exigências de autotransformação do indivíduo, sob condições modernas perdem muito da verticalidade, em função das forças horizontais de secularização, do progresso e da movimentação plana para a frente. A existência em geral perde muito de sua diferenciação ética e hierárquica. Resta ao indivíduo duas modalidades de aperfeiçoamento do self: uma, em que se deixa operar por outrem (o paciente que se entrega ao cirurgião), isto é, deixa-se informar, deixa-se divertir, deixa-se servir, deixa-se curar. outra em que o próprio individuo se opera. Seriam antropotécnica conflitantes entre si. Uma, não dispensa o corpo anestesiado; outra, revolucionária, extrema e composta por legiões de ativistas apressados.

Num cenário epocal em que nem o céu, nem a sociedade, nem a interioridade podem mais ser vistas como lugar de salvação (leia-se fugir do mundo, mas como fugir do mundo se as coisas exteriores invadiram a casa intima?), os metafísicos reagem com relativismo e cinismo; os religiosos com desamparo e abandono e os utopistas com decepção e impotência.

O que Sloterdijk propõe é a consciência e a lembrança de que as formas de vida de exercícios não param de “liberar energias salutogênicas” (2018:.541) elas mesmas, examinadas, reutilizadas e inventadas, são capazes de provocar um novo ciclo de secessões, ao menos para tirar os homens, se não do mundo, mas da estupidez, da depressão e da banalidade.

Fontes consultadas:
BRUSEKE, Franz Josef. Uma vida de exercícios: a antropotécnica de Peter Sloterdijk. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 26,63-174, 2011. 
GHIRALDELLI Jr. Paulo. 10 lições sobre Sloterdijk. Editora Vozes, 2018 MEANEY, Thomas. A celebrity philosopher explains the populist insurgency. The NewYorker, February, 19, 2018.
SLOTERDIJK, Peter. Selected Exaggerations: Conversations and Interviews (1993 – 2012). Polity Press, 2016.
SLOTERDIJK, Peter. Tens de Mudar de Vida. Sobre Antropotécnica (Trad. C. Leite). Relógio d’Água, 2018.
WEBER, José Fernandes. Sloterdijk: antropotécnica e exercício. 4to Congreso Latinoamericano de Filosofía de la Educación. 10 a 13 de outubro de 2017.

Publicado originalmente em inovadores.org.br

 

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